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Defesa da liberdade de imprensa não pode permitir confusão entre civismo e cinismo

 

“Se eu deixar que me chamem de bêbado sem fazer nada, daqui a pouco vão dizer que eu sou gay e vocês não vão me deixar fazer nada”.

Essa frase tem o jeitão do Bolsonaro, mas na verdade… é do Lula.

Em 2004, o então presidente Luiz Inácio reagiu assim a uma reportagem do jornalista americano Larry Rohter, correspondente do The New York Times.

Um murro na mesa e palavrões marcaram a decisão de Lula de “expulsar” o repórter do Brasil e causar um incidente diplomático internacional.

O suposto crime do jornalista foi reproduzir insinuações, de amigos e inimigos de Lula, revelando que ele tinha “problemas com o álcool”.

Daí que o mundo inteiro passou a enxergar como intolerante e autoritário o operário que parecia ser um verdadeiro democrata.

Naquela época, ninguém foi pra rua defender a democracia, o jornalista e os gays – todos insultados numa única frase cheia de ignorância, arrogância e preconceito.

Assim como ninguém foi pra rua quando a revista “Crusoé” e o site “Antagonista” foram cassados porque aborreceram dois ministros do STF.

Na terça-feira, centenas de pessoas se reuniram na ABI para, acertadamente (repito: acertadamente), defender o “The Intercept”. O site foi  alvo de críticas do Bolsonaro, bem ao gosto do Lula, e alvo de críticas da opinião pública, bem ao gosto da liberdade de expressão.

Algumas dessas pessoas só esqueceram o seguinte: quando se trata de liberdade de imprensa ou de expressão, tão importante quanto “vigiar o presente” é nunca, jamais, “esquecer o passado”. Principalmente quando as ameaças do presente se manifestam à imagem e semelhança do passado.

Caso contrário: um aparente ato de civismo pode acabar sendo confundido com um evidente ato de cinismo.