Alex Campos entrevista o Convidado de Honra MARCIO CORIOLANO – Presidente da CNseg

‘O IMPREVISÍVEL NEM SEMPRE É AMIGO DA SORTE’

Representante de um mercado resiliente às crises dos últimos anos, com crescimentos acima do Produto Interno Bruto (PIB), Marcio Coriolano, presidente da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Privados, Previdência, Saúde e Capitalização (CNseg), está determinado: quer melhorar e ampliar cada vez mais a capacidade de comunicação do setor, buscando, sim, níveis inéditos de popularização e consolidação. Para isso, ele conta com um arsenal de esforços: “Especialmente por meio da nossa Rádio CNseg, nossos canais nas redes soiais, nossas cartilhas, guias, e uma série de ações voltadas para o governo, o Legislativo e os órgãos de defesa do consumidor”. Nesta entrevista – para a coluna CONVIDADO DE HONRA \ VIP (Very Important President), dedicada ao debate de grandes temas com grandes lideranças brasileiras – Marcio lembra que, seguro é prevenção e, portanto, deve fazer parte da nossa cultura, do nosso dia a dia.

Por ALEX CAMPOS  |  Foto: Divulgação (CNseg)

Alex – Você sabe, Marcio, que, além da rádio, eu tenho uma coluna sobre educação financeira em dois jornais (no Rio e em São Paulo), por isso me interessa muito o programa de educação em seguros da CNseg. Eu queria que você começasse falando desse programa:

Marcio – Seguro, e o nome já diz, é fundamental em nosso dia a dia. Mas é bom deixar claro que a ideia de que os consumidores adquirem seguros para satisfazer uma necessidade de segurança é simplista. O seguro é muito mais que essa ideia solta. Ele tem de estar ali, lado a lado conosco, para nos ajudar nos momentos mais difíceis com os quais nos deparamos ao longo da vida, em todas as frentes possíveis. Seguro é uma ferramenta que nos ensina a lidar com o imprevisível. Hoje, no Brasil, que vivencia incertezas políticas e econômicas, é fundamental que cada brasileiro se previna, que cada família se proteja, e o seguro é uma ferramenta fundamental para um planejamento de vida. Por isso a CNseg aposta na popularização da educação em seguros e trabalha arduamente, recorrendo aos seus mecanismos de comunicação com a imprensa, consumidor e mercado. Afinal, o papel social do seguro é o primeiro que vem à mente para atenuar os efeitos financeiros de eventos sobre os quais temos pouco ou nenhum controle, como doença, acidente, morte, catástrofes naturais e por aí vai. Mais que um alarde, seguro é prevenção, volto a frisar. O seguro representa a diferença entre a segurança econômica e o ocaso financeiro de uma pessoa. Ele, o seguro, está ali, entre estes dois polos, como uma barreira. Em certos casos, como no seguro saúde, a diferença pode estar entre a vida e a morte.

– Seguro ainda é visto pelo consumidor como um produto caro?

O consumidor brasileiro ainda está se aproximando do seguro. Pesquisas recentes apontam para essa evolução gradual. E isso é excelente porque mostra que o nosso empenho pela educação em seguros está no caminho certo. O fato de ser caro ou barato, é muito relativo. Tudo dependerá do modelo do seguro e para o que ele se aplica. Tudo muito relativo. No geral – digamos, pelo senso comum -, o brasileiro, em alguns casos, ainda relega o seguro ao segundo plano. Impera ainda aquele dilema existencial na cultura brasileira: deixamos a vida nos levar ou somos nós quem a conduzimos? A CNseg, destaco novamente, vem de forma incansável e obstinada fomentando os conceitos básicos do seguro e a importância deles no dia a dia de todos nós. Está dando certo, e quem mais ganha com isso é o consumidor.

– Desculpe-me pela insistência, Marcio, mas as pessoas veem o seguro como algo complicado, até mesmo burocrático. Como o mercado reage a isso?

– Sim, Alex, você está corretíssimo. E é por isso que eu também insisto: o melhor caminho é o que a CNseg vem percorrendo: a disseminação do Programa de Educação em Seguros. O desafio do mercado, e quando falo mercado refiro-me também às empresas e à sociedade, é reforçar no consumidor a necessidade de uma vida preocupada com o presente, porém reconhecendo que o futuro é logo ali, e nele tudo pode acontecer. O imprevisível nem sempre é amigo da sorte e, afinal, se sempre estamos abertos para surpresas agradáveis, devemos estar preparados para as desagradáveis também. Hoje, e isso é uma recomendação que a CNseg dá ao mercado, as empresas do setor estão cientes disso e procuram, inicialmente, transformar a linguagem do setor, tida como árida, em algo mais palpável, mas sem perder o didatismo necessário para que não haja má interpretação. Nosso canais nas redes sociais, especialmente a Rádio CNseg, estão obtendo um excelente resultado nesse sentido, ou seja, descomplicando o tema e desmistificando a imagem de que seguro está atrelado somente à tragédia. Além disso, a Confederação vem desenvolvendo uma série de ações voltadas para o governo, o legislativo e os órgãos de defesa do consumidor. Seguro é prevenção e, portanto, deve fazer parte da nossa cultura no dia a dia. A resposta do mercado e dos consumidores tem sido muito gratificante. Temos cartilhas nas quais mostramos o melhor caminho a seguir quando se perde um emprego, quando se perde uma pessoa querida, quando se tem problema com o carro ou mesmo quando se quer mais segurança para nossa casa.

– Quando falamos em educação em seguros, como o Brasil se encontra em relação a outros países?

– O seguro ainda é um ilustre desconhecido do brasileiro. Milhões ainda ignoram o que é uma apólice. Ano a ano, as seguradoras pagam bilhões de reais em indenizações, benefícios e resgates para todos os tipos de situações, mas o seguro, em si, continua desconhecido de boa parte dos brasileiros. Ou melhor, a importância do seguro é que ainda não foi devidamente internalizada pelo consumidor brasileiro como uma cultura. Mas isso está mudando. E o melhor caminho é a união dos principais atores do mercado na busca por uma educação sobre o seguro. E isso se deve aprender desde criancinha, no ensino fundamental, como um dos pontos do programa nacional de educação financeira. Você sabia, Alex, que na América Latina há países, além do Brasil, é claro, avançando com a alfabetização financeira nas escolas? A Colômbia faz isso desde 2012. Chile e Peru, igualmente ao Brasil, desde 2015. Nos países mais ricos, a cultura do seguro está internalizada, mas em outros, inclusive do “Velho Continente”, a Europa, como a Espanha, por exemplo, o nível de conhecimentos básicos das finanças está abaixo dos apresentados por países da OCDE, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Lá como aqui ainda pairam muitas dúvidas sobre a representatividade do seguro no dia a dia. Os países do G20, de modo geral, já implantaram estratégias nacionais de educação financeira. Entre estes países, estamos lá, firmes, difundido nossas estratégias, seja por nós, da CNseg, com o programa de educação em seguros, ou seja pelo governo, como sua estratégia nacional de educação financeira. Além do Brasil, Austrália, Japão, Holanda, África do Sul, a própria Espanha, Reino Unido e Estados Unidos tocam seus programas.

– Sabemos que o Brasil mantém um amplo programa nacional de educação financeira, como você mesmo pontuou. Como está inserido nele o conceito de educação em seguros?

– O tema é primordial. Em torno da Estratégia Nacional de Educação Financeira estão alinhados o Banco Central, a CVM, os Ministérios da Fazenda e da Justiça, Febraban, Anbima, AEF-Brasil, Previc e Brasil Bolsa-Balcão. Mas o setor de seguros está nesse time, com a CNseg e a Susep. A educação em seguros é uma evolução da educação financeira e os seus fundamentos diferem bastante. É por isso que batemos na tecla da educação em seguros.

– Podemos dizer, assim, que o programa de educação em seguros é um braço da Estratégia Nacional de Educação Financeira?

– Sem dúvida alguma. Estamos no mesmo barco, ou seja, colaborar para que o brasileiro saiba se planejar melhor financeiramente e, claro, defender-se nos momentos mais sensíveis da economia e da política, como o que vivenciamos hoje.

– De fato, vivemos um momento de incertezas na política e na economia. Qual o papel do seguro nesse cenário?

– Permita-me, Alex, antes de apontar qual o nosso papel no contexto atual em que vivemos no país, mostrar como o mercado de seguros se encontra nos últimos meses. Vamos lá: o setor segue mostrando postura resiliente em meio ao cenário de incertezas da economia nacional. Nos cinco primeiros meses de 2017, o setor registrou crescimento nominal de 7%, após ter demonstrado alta de 13,9% no primeiro trimestre deste ano. Cresceu menos, é verdade, mas cresceu bem mais do que o PIB. Essa desaceleração tem raiz nos atuais cenários econômico e político, no quais imperam várias incertezas. Houve uma reversão de expectativas em diversos segmentos. É importante destacar que, cada vez mais, diante de cenários como o que estamos vivendo, o seguro reforça o seu papel de agente de desenvolvimento social e econômico do país.

– Quais os desafios da indústria dos seguros para orientar o consumidor brasileiro para uma política preventiva?

– São muitos. A começar pela dimensão geográfica do país. O Brasil é quase um continente, com uma diversidade cultural extraordinária, sofrendo, contudo, com uma desigualdade social e econômica latente e enraizada durante décadas. Por isso, é imprescindível levar o tema da proteção às escolas, incutindo nas gerações mais jovens a importância de se prepararem para o mercado e a vida que os aguardam. Nosso principal projeto na CNseg é colocar o mercado de seguros no centro das políticas econômicas e públicas do país. O setor tem potencial para ser um dos principais motores para o crescimento sustentável, mas para isso é preciso ser devidamente incentivado e reconhecido pelo governo como um ator importante no cenário econômico e, sobretudo, social.

– As empresas brasileiras estão preparadas para difundir a educação em seguros?

– Não somente as empresas que operam no setor de seguros brasileiro como também os demais agentes do mercado. Hoje, as seguradoras respondem bem ao mercado, com índices baixos de reclamações do consumidor quando comparadas com as de outros setores. Muitas empresas do mercado de seguros mantêm projetos sociais que têm como base a educação financeira e em seguros.

– Só para não perder o didatismo: quem fiscaliza o mercado de seguros no Brasil?

– A Susep exerce esse papel desde 1966. O sistema de seguros brasileiros surgiu em 1808 com a abertura dos portos brasileiros ao comércio de outros países. Desde sua origem, o seguro tem a mesma função: indenizar o segurado por eventuais prejuízos que venha a ter. De lá para cá, o setor segue à risca essa premissa, mas temos a consciência de que ainda podemos fazer muito mais pelo país, caso o setor de seguros esteja inserido em políticas primárias do governo. Já a ANS fiscaliza o mercado de seguros de saúde.

(…)

E MAIS:

A importância dos seguros na vida das pessoas, na vida do país: